Sobre a morte - uma reflexão apaziguadora
- Isa Pereira

- 25 de jul. de 2020
- 4 min de leitura
Atualizado: 2 de dez. de 2020
Porque após a Morte… surge a Vida novamente.
O tema da Morte tem uma presença muito forte na minha vida desde que iniciei o percurso como Veterinária Convencional ao realizar, de forma frequente, eutanásias.
Sempre fui muito sensível a esse acto, sempre senti muito respeito mas nem sempre senti honra em fazê-lo.
Quem era eu para o fazer?
Quem era eu para o decidir?
Como poderia eu pôr um fim a uma Vida?
Terá o animal de partir naturalmente?
Terei eu de ajudá-lo a partir?
Surgiram muitas dificuldades na gestão emocional e prática no momento da morte…
No entanto, sentia que a Vida me colocava (e coloca) sempre a Morte por perto, de forma constante, e, inevitavelmente, acaba por ser assim com todos nós.. Este é um tema universal e muito difícil e desafiante de digerir no Ocidente.
Esse fluxo entre Vida e Morte permanece um mistério e há que entregar, de certa forma, a percepção racional a um entendimento maior e a uma mudança de perspectiva interna para que possa ser aceite, integrado e vivido em potencial.
No momento da eutanásia, as questões mais constantes dos cuidadores são:
“ Será que é o momento?”,
“ Como saberei?”,
“ Como posso ter a certeza?”,
“ O que será que o meu animal quer e necessita?”.
A ‘certeza de que é o momento’ carrega uma auto-exigência enorme. Não nos cabe realmente a nós decidir o momento ou sequer antecipá-lo, portanto como poderemos exigi-lo?
Deixar acontecer o momento, precisa de entrega ao ritmo natural, uma rendição, uma escuta ao fluxo que a só a Vida e a Morte escolhem.
Sempre sinto importante lembrar aos cuidadores: “Irão sentir quando esse momento chegar”, e, na realidade, sempre sabem. Nunca presenciei um cuidador que não sentisse o momento. É algo inato, intuitivo, inerente à ligação forte e profunda que se estabelece com o animal.
A certeza do momento acontece quando entregamos à Vida essa decisão, sem a controlarmos, confiando inteiramente no que sentimos intuitivamente.
O animal comunica sempre connosco - indica-nos as suas emoções através do olhar, da postura e da sua energia de uma forma muito clara.
Assim, a única coisa que este momento pede é Presença e Escuta.
Aquilo que o animal necessita sempre é ser acompanhado em Amor, Conexão e Respeito.
Qualquer que seja a decisão tomada pelo cuidador, será, naturalmente, a melhor decisão para o seu animal, pois o mais importante é de onde vem essa decisão e como o animal é acompanhado até partir.
Essa decisão vem sempre do melhor que conseguimos percepcionar, portanto não há que exigir nada a não ser dar todo o amor e acolhimento a toda essa fase prévia e quando chega o momento da morte.
Ressalvo aqui que, sempre que possível o ideal é acompanhar esta esta fase através de comunicação telepática com o animal, para que haja mais consciência da decisão e das necessidades do animal. Desta forma, o cuidador ficará mais descansado, pois sabe ser a escolha do seu animal.
Apesar do processo ser doloroso, acompanhei casos de cuidadores que carregam o sentimento de culpa por vários anos, sendo que, em verdade, foi o melhor que decidiram no momento.
O essencial é estar em paz com essa decisão.
É sempre importante respeitar, acolher e validar o que sentimos.
De um ponto de vista mais alargado, de uma perspectiva maior, Deus, o Universo o como quisermos nomear, faz com tudo aconteça como tem de acontecer.
Se tomamos a decisão de nos responsabilizarmos pela Vida do nosso animal, não há culpa em nos responsabilizarmos pela decisão da sua morte.
Na realidade não estamos a ser nós a decidir, mas sim a Vida através de nós.
No último ano, assisti como Veterinária e cuidadora a duas mortes de duas gatas, Surya e Ísis.
Tive a oportunidade de vivenciar na realidade o desapego destas almas que tanto me acompanharam.
Nesses processos presenciei dois tipos de mortes diferentes, obviamente impactantes a nível emocional, cada uma da sua forma.
Após ‘digeri-los’, senti que a ligação permanece, mesmo que já não em presença física - a ligação de Amor prevalece.
Como Veterinária, sempre me ligarei ao que sinto intuitivamente do animal e ao que o seu cuidador sente.
Desta forma este momento será sempre honrado em todo o seu potencial e acolhimento.
Hoje, honro esse momento da mesma forma que honro a vida.
Que este texto sirva para nos apaziguar nesse momento recheado de fragilidade e vulnerabilidade.
Para que o processo da morte seja um acto de amor.
Para que estejamos em paz e entregues à Vida e à Morte.
Para que amemos e disfrutemos de cada momento que estamos na presença destes Seres tão especiais que de forma tão nobre dedicam a sua vida a estar connosco e a amarnos incondicionalmente.
Este texto não pretende apoiar decisões baseadas no facilitismo em induzir a morte de forma inconsciente.
Este texto não pretende colocar-nos numa posição antropocêntrica ou ‘acima’ dos animais, e a partir desse espaço a decisão da sua morte.





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